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Vinil Gisela João 2014 ao Vivo

Madrugada sem sono

Na solidão a esperar-te
Meu amor fora da lei
Mordi meus lábios sem beijos
Tive ciúmes, chorei

Despedi-me do teu corpo
E por orgulho fugi
Andei dum corpo a outro corpo
Só p’ra me esquecer de ti

Embriaguei-me, cantei
E busquei estrelas na lama
Naufraguei meu coração
Nas ondas loucas da cama

Ai abraços frios de raiva
Ai beijos de nojo e fome
Ai nomes que murmurei
Com a febre do teu nome

De madrugada sem sono
Sem sem luz, nem amor, nem lei
Mordi os brancos lençóis
Tive saudades, chorei

SLEEPLESS DAWN

Waiting for you in solitude
My outlaw lover
I kept biting my lips that had not kissed
I was jealous, I wept

I said farewell to your body
And ran away, out of pride
I moved from body to body
Only to forget you

I got drunk, I sang
I searched for stars in the mud
I shipwrecked my heart
In the mad waves of a bed

Oh cold, raging embraces
Oh kisses of disgust and hunger
Oh names I have whispered
in the fever of your name

From a sleepless dawn
No light, no love, no law
I kept biting the clean white sheets
I missed you, I wept

2 Vieste do Fim do Mundo

Vieste do fim do mundo
num barco vagabundo
Vieste como quem
tinha que vir para contar
histórias e verdades
vontades e carinhos
promessas e mentiras de quem
de porto em porto amar se faz.

Vieste de repente
de olhar tão meigo e quente
bebeste a celebrar
a volta tua
tomaste-me em teus braços
em marinheiros laços
tocaste no meu corpo uma canção
que em vil magia me fez tua.

Subiste para o quarto
de andar tão mole e farto
de beijos e de rum
a noite ardeu
cobri-me em tatuagens
dissolvi-me em viagens
com pólvora e perdões tomaste
o meu navio que agora é teu.

YOU CAME FROM THE END OF THE WORLD

You came from the end of the world
in a vagabond ship
You came like someone
who was bound to come and tell of
stories and truths
wishes and tendernesses
promises and lies from those
who find themselves loved in every port.

You arrived suddenly
with such a kind and warm gaze
you drank to celebrate
your return
you took me in your arms
full of sailor’s knots
you played a song in my body
and its vile magic made me yours.

You came up to the room
with a slow tired walk full
of kisses and rhum
the night caught fire
I covered myself in tattoos
I dissolved myself in travels
with your gunpowder and forgiveness you took
my ship that is now yours.

Bailarico Saloio

Ainda agora aqui cheguei
Já me mandaram cantar
Sou criado a lhe servir
Não me posso demorar

Bailarico saloio
Não tem nada que saber
É andar com um pé no ar
Outro no chão a bater

Anda lá para adiante
Que eu atrás de ti não vou
Não me pede ao coração
Amar a quem me deixou

Ó sua descaradona
Tira a roupa da janela
Que essa camisa sem dona
Lembra-me a madona sem ela

COUNTRY DANCE

I have only just arrived
And I’m already told to sing
I’m a waiter at your service
I can’t stay long

Country dance
Nothing about it
Just walk with one foot up
And stomp the other on the floor

Go ahead of me
Because I will not follow you
You should not ask my heart
to love who has left me

Oh you brazen hussy
Take the clothes off your window
That shirt without an owner
Reminds me of an owner without a shirt

Voltaste

Voltaste, ainda bem que voltaste
As saudades que eu sentia
não podes avaliar

Voltaste, e á minha vida vazia
Voltou aquela alegria
que só tu lhe podes dar

Voltaste, ainda bem que voltaste
Embora saiba que vou
sofrer o que já sofri

Cansei, cansei de chorar sozinha
Antes mentiras contigo
do que verdades sem ti

Voltaste, que coisa mais singular,
Eu quase não sei cantar
se tu não estás a meu lado

Voltaste, já não me queixo não grito
És o verso mais bonito
deste meu fado acabado

Voltaste, ainda bem que voltaste
O passado é passado,
para quê lembrar agora

Voltaste, quero lá saber da vida
Quando dormes a meu lado,
a vida dorme lá fora

YOU COME BACK

You came back, I’m glad you came back
How much I missed you
you cannot understand

You came back, and to my empty life
returned that joy
only you can bring.

You came back, I’m glad you came back
Though I know I shall
suffer as much as I already have

I’m tired, I’m tired of crying on my own
I’d rather live lies with you
than truths without you

You came back, what a peculiar thing
I almost don‘t know how to sing
if you‘re not next to me

You came back, I don’t complain, I don’t shout
You’re the most beautiful verse
in this my finished fado

You came back, I’m so glad you came back
The past is gone,
why remember it now.

You came back, what do I care about life
When you speak next to me
life sleeps outside

(A CASA DA) MARIQUINHAS

Foi numa ruela escura que encontrei
A tal casa do fado da Mariquinhas
Que de Alfredo Marceneiro
Veio ao nosso cancioneiro
Como sendo uma casa de meninas.

E com o tempo passado
Foi na voz da Dona Amália
Que a casa foi da desgraça às ginjinhas ;
E que mesmo com um fado renovado
Já não tinha nem sardinhas.

Depois veio a Hermínia Silva que cantou
O regresso da saudosa Mariquinhas.

Mas foi sol de pouca dura
Que mesmo sem ditadura,
Hoje em dia até as vacas são lingrinhas.

Agora veem meus olhos
Que nem amor, nem penhor
Esta casa está mais velha que as vizinhas.

As janelas estão tapadas com tijolos,
E as paredes estão sozinhas.

Só um gato solitário no telhado.
E uma placa que está cheia de letrinhas
Vende-se oca e esburacada ;
Por fora toda riscada,
E encostada na fachada uma menina

Mas esta não canta o fado.
Só sabe fumar cigarro e com o fumo
Quando sopra faz bolinhas.
Não sabe quem já morou naquele espaço
Ou quem foi a Mariquinhas.

E aqui estou eu à porta desgostosa
Vendo a casa que está morta em em ruínas.
Por causa destes senhores
Até já nem tem penhores,
Porque mais ninguém tem ouro nas voltinhas.

Mas seu eu fechar os olhos
E imaginar as farras,
ainda se ouvem guitarras
E cantigas.
Porque a casa é a canção que sei de cor,
E vou cantar toda a vida

Porque a casa é a canção que sei de cor,
E vou cantar toda a vida!

MARIQUINHA´S (PLACE)

It was in a darkened street that I found
The celebrated Mariquinhas’ fado house
That Alfredo Marceneiro
Set down for all times
As a red-light house of ladies.

And as time went by
It was in the voice of Miss Amália
That the house fell from disgrace to sour cherry liqueur;
And even with a brand new Fado
There were no more sardines.

Later Hermínia Silva came and sang
Of the return of the fondly remembered Mariquinhas.

But it didn’t last long
Even without a dictatorship
Nowadays even cows are thin…

Now my eyes see that
there’s no love and no money
and this house is older than its neighbours.

The windows are bricked over
And the walls are on their own.

Only a lonely cat on the roof
And a sign in small letters
“For sale”, all hollow, full of holes;
Outside it’s all scrawled over,
And there’s a girl leaning on the wall.

She doesn’t sing fado though.
All she does is smoke a cigarette
and use the smoke to blow bubbles.
She doesn’t know who used to live there
Or even who was Mariquinhas.

And here I am forlorn at the door,
Seeing the house dead and ruined,
Because of these gentleman
It’s not even a pawn shop
since nobody has gold these days anyway.

But if I close my eyes
and think of the parties
I can still hear the guitars
and songs.
Because this house is a song I know by heart
that I will sing all my life.

Because this house is a song I know by heart
That I will sing all my life!

SOU TUA

Ás vezes sinto desejo
De ofender-te, embora iluda
Meu coração a sofrer
Mas fico, quando te vejo
Tão pequenina, tão muda
Com tanto p’ra te dizer
É então que a minha boca
Porta voz desta alma louca
Murmura quase sem querer

Sou tua… como o luar é da lua
Como as pedras são da rua,e p’ra ser tua nasci
Sou tua… tão tua que me convenço
Que já nem a mim pertenço, Que sou um pouco de ti
Sou tua… Deixa-me gritar ao vento
P’ra que o vento num lamento, diga ao mar, á terra, ao céu
Sou tua… e deixa que os olhos meus
Só vejam p’ra ver os teus, embora não sejas meu

I AM YOURS

Sometimes I feel the desire
To offend you, even if it’s an illusion
For my suffering heart
But when I see I become
So small, so speechless
With so much to say to you
And then my mouth
Spokeswoman of my wild soul
Whispers almost unknowingly

I am yours like the moonlight is the moon’s
Like the stones are the street’s, and I was born to be yours
I am yours, so yours that I convince myself
That I no longer belong to myself, that I am a little bit of you
I am yours, let me shout it to the winds
So the winds in a lament will tell the sea, the land, the sky
I am yours, and let my eyes
live to see yours alone, even though you are not mine

Malhões e Viras

Pra onde vais toda lampeira
Morena de olhos travessos
pra onde vais toda lampeira

Oh malhão, malhão..

Pra onde vais toda lampeira
Tão depressa e coradinha
toda cheia de chieira

Oh malhão, malhão

Isto é do pó da eira!
Chamaste-me, moreninha
isto é do pó da eira

Ó malhão, triste malhão
Ó malhão, triste malhão
Ó malhão, triste, coitado!
Eu por ti suspiro, eu por ti dou ais
Eu por ti não vou suspirar já mais!
Eu por ti suspiro, eu por ti dou ais
Eu por ti não vou suspirar já mais!

Ó malhão, triste, coitado
Por causa de ti, malhão
Ando triste, apaixonado
Eu por ti suspiro, eu por ti dou ais
Eu por ti não vou suspirar ja mais
Eu por ti suspiro, eu por ti dou ais
Eu por ti não vou suspirar ja mais

Oh meu amor meu amor
Quem me dera ter-te aqui
Quem me dera ter-te aqui
Oh ai oh lariloléla

Passar toda a minha vida
Contigo ao pé de mim
Contigo ao pé de mim
Oh ai oh lariloléla

Deixa-te estar a meu lado
e não mais te vás embora
E não mais te vás embora
Oh ai oh lariloléla

Pró meu coração coitado
Viver na vida uma hora
Viver na vida uma hora
Oh ai oh lariloléla

Oh malhão, triste malhão
Oh malhão, triste malhão
Oh lindinho!
Triste vida, quem te dá

Não hei de casar contigo
Não hei de casar contigo
Oh lindinho!
Nem te hei de deixar casar!

Oh malhão, triste malhão
Oh malhão, triste malhão
Ai, tão lindo!
Oh, malhão, triste coitado!

Por causa de ti, malhão
Por causa de ti, malhão
Oh, lindinho
Ando triste, apaixonada!

Oh minha menina, não hás-de chorar
Hás de ter amores
E sabê-los amar

MALHÕES AND VIRAS

Where are you going in such hurry ?
Oh witty-eyed brunette
Where are you going in such hurry ?

Oh malhão, malhão
Where are you going in such hurry?
So quickly, so blushing,
so full of dust

Oh malhão, malhão
this is the dust from the threshing
Did you call for me, brunette
This is the dust from the threshing

Oh malhão, sad malhão
Oh malhão, sad malhão
Oh malhão, you poor thing!
I sigh for you, I vow for you,
But I won’t sigh for you any more!

Oh malhão, you poor thing
Because of you, malhão
I am sad and in loved
I sigh for you, I vow for you
But I won’t sigh for you any more!

Oh my love, my love
I wish you were here
I wish you were here
Oh hey nonny no

To spend all of my life
With you next to me
With you next to me
Oh hey nonny no

Just stay next to me
Never leave anymore
Never leave anymore
Oh hey nonny no

So my poor little heart
Can live one hour in the life
Can live one hour in the life
Oh hey nonny no

Oh malhão, sad malhão
Oh malhão, sad malhão
Oh malhão, sad malhão
Oh beautiful!
Who gives you this sad life?

I will not marry you
I will not marry you
Oh beautiful!
And I won’t let you marry!

Oh malhão, sad malhão
Oh malhão, sad malhão
Oh malhão, sad malhão
Oh beautiful !
Oh malhão you poor thing !

Because of you, malhão
Because of you, malhão
Oh beautiful
I am sad and in love !

Oh baby don’t you cry
You will have your loves
You will know how to love them

Maldição

Que destino, ou maldição
Manda em nós, meu coração?
Um do outro assim perdido,
Somos dois gritos calados,
Dois fados desencontrados,
Dois amantes desunidos.

Por ti sofro e vou morrendo,
Não te encontro, nem te entendo,
Amo e odeio sem razão:
Coração… quando te cansas
Das nossas mortas esperanças,
Quando paras, coração?

Nesta luta, esta agonia,
Canto e choro de alegria,
Sou feliz e desgraçada.
Que sina a tua, meu peito,
Que nunca estás satisfeito,
Que dás tudo… e não tens nada.

Na gelada solidão,
Que tu me dás coração,
Não há vida nem há morte:
É lucidez, desatino,
De ler no próprio destino
Sem poder mudar-lhe a sorte…

MALHÕES AND VIRAS

Where are you going in such hurry ?
Oh witty-eyed brunette
Where are you going in such hurry ?

Oh malhão, malhão
Where are you going in such hurry?
So quickly, so blushing,
so full of dust

Oh malhão, malhão
this is the dust from the threshing
Did you call for me, brunette
This is the dust from the threshing

Oh malhão, sad malhão
Oh malhão, sad malhão
Oh malhão, you poor thing!
I sigh for you, I vow for you,
But I won’t sigh for you any more!

Oh malhão, you poor thing
Because of you, malhão
I am sad and in loved
I sigh for you, I vow for you
But I won’t sigh for you any more!

Oh my love, my love
I wish you were here
I wish you were here
Oh hey nonny no

To spend all of my life
With you next to me
With you next to me
Oh hey nonny no

Just stay next to me
Never leave anymore
Never leave anymore
Oh hey nonny no

So my poor little heart
Can live one hour in the life
Can live one hour in the life
Oh hey nonny no

Oh malhão, sad malhão
Oh malhão, sad malhão
Oh malhão, sad malhão
Oh beautiful!
Who gives you this sad life?

I will not marry you
I will not marry you
Oh beautiful!
And I won’t let you marry!

Oh malhão, sad malhão
Oh malhão, sad malhão
Oh malhão, sad malhão
Oh beautiful !
Oh malhão you poor thing !

Because of you, malhão
Because of you, malhão
Oh beautiful
I am sad and in love !

Oh baby don’t you cry
You will have your loves
You will know how to love them

9 Não venhas tarde

Não venhas tarde… dizes-me tu com carinho
Sem nunca fazer alarde do que me pedes baixinho
Não venhas tarde… eu peço a Deus que no fim
Teu coração ainda guarde… um pouco de amor por mim

Tu sabes bem que eu vou p’ra outra mulher
Que ela me prende também
E eu só faço o que ela quer
Tu estás sentindo que te minto e sou cobarde
E sabes dizer, sorrindo
Meu amor não venhas tarde

Não venhas tarde… dizes-me sem azedume
Quando o teu coração arde… na fogueira do ciúme
Não venhas tarde… dizes-me tu da janela
Eu venho sempre mais tarde porque não sei fugir dela

Tu sabes bem que eu vou p’ra outra mulher
Que ela me prende também
E eu só faço o que ela quer
Sem alegria, eu confesso, tenho medo
Que tu me digas um dia
Meu amor não venhas cedo

Por ironia, pois nunca sei onde vais
Que eu chegue cedo algum dia e seja tarde demais

DON´T COME LATE

Don’t come late… you say tenderly to me
Never being open about what you ask me hushedly
Don’t come late… I ask God that at the end
Your heart will still have… some love for me

You know well I go to another woman
She has ties to me as well
And I do everything she asks me to
You feel I lie to you and am a coward
And you can say with a smile
My love don’t be late

Don’t come late… you tell me with no hard feelings
When your heart is burning… in the flames of jealousy
Don’t come late… you say to me from the window
And I always come late because I can’t run away from her

You know well I go to another woman
She has ties to me as well
And I do everything she asks me to
With no joy I will admit I’m afraid
That someday you’ll say to me
My love don’t come early

An irony because I never know where you’re going
I may come early someday and by then it’ll be too late

10 ANTIGAMENTE

Meu velho Fado Corrido
se foste dos mais bairristas
porque te mostras esquecido
na garganta dos fadistas?

Explicou-me um velho amigo
como o Fado era tratado
Tinha graça, o Fado antigo
da forma que era cantado

Um ramo de loiro à porta
indicava uma taberna
À noite era uma lanterna
com sua luz quase morta

Como o fado tudo “importa”
foi sempre a taberna abrigo
do meliante ao mendigo
da desgraça e da miséria
Também tinha gente séria
explicou-me um velho amigo

Sob os cascos da “vinhaça”
deitada em forma bizarra
estava sempre uma guitarra
para servir de “negaça”

O canjirão da “murraça”
de tosco barro vidrado
andava sempre colado
aos copos p’lo balcão
E era assim nesta função
como o Fado era tratado

Se aparecia um tocador
às vezes até “zaranza”
pedia ao tasqueiro a banza
para mostrar seu valor

Logo havia um cantador
dando o tom de certo perigo
provocava o inimigo
num cantar à desgarrada
Até às vezes com “lambada”
tinha graça, o Fado antigo

Pouco tempo decorrido
cheia a taberna se via
p’ra escutar a cantoria
ao som do Fado Corrido

Todos prestavam sentido
quando alguém cantava o Fado
O tocar era arrastado
o estilo dava a garganta
E hoje pouca gente o canta
da forma que era cantado

Escutei com atenção
um cantador do passado
e a sua linda canção
prendeu-me p’ra sempre ao Fado

Por muito que se disser
o Fado é canção bairrista
Não é fadista quem quer
mas sim quem nasceu fadista

IN THE OLD DAYS

My old Fado Corrido
if you were a local hero
why have you been forgotten
by the throats of the singers?

An old friend explained to me
the way Fado was treated
Old Fado was witty
in the way people sang it

A bunch of bay leaves on the door
Said that was a tavern
and at night almost a lantern
its light almost dead

As the Fado “imports” everything
the tavern was always a shelter
for the criminal, the beggar
the disgrace, the misery
But there were also decent people
as an old friend said to me

Under the barrels of wine
there was always bizarrely
lying this small guitar
to work as denial.

The bowl for the wine
glazed in rough clay
was always glued
to the glasses on the counter
and it was right this way
that Fado was treated.